Que pensamos?

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade*

Quantas estatísticas, dados, gráficos ou índices bem organizados…

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

quantas manchetes, fotos, fatos ou matérias no jornal telediário…

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

quantos quilos de gente, quantos litros de vida,
quantos metros de vergonha estendida
são necessários…

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

para que não mais aceitemos
a injustiça, a pobreza, a miséria,
ou como preferem
“a desigualdade social brasileira”
como algo imutavel.

Somos o país mais desigual do mundo e não precisamos assistir a TV para sabermos dis-so… uma volta na praça ou mesmo em seu próprio quarteirão basta. A miséria e o medo estão em cada canto seja nas casas gradeadas, nos condomínios lacrados, nos olhares assustados ou na miséria, fratura-exposta no meio da cidade, como mão que se estende ora em suplica ora em ameaça armada.

Por que apesar da miséria brasileira ser tão evidente e presente em nosso cotidiano ela segue tão ignorada? Por que ainda há tantos acreditando que a fome é fruto da preguiça e que a violência é fruto de uma maldade inata? Por que a maioria aceita como natural que mais de 30% da população brasileira, ou seja, 50 milhões de pessoas “vivam” abaixo da linha da pobreza (o que significa que passam o dia com R$2.6 reais! )

Por que esses 50 milhões de seres-humanos aceitam a falta de comida, de moradia, de educação, de saúde, de emprego? Vários são os instrumentos de coação ideológica usados para que se mantenha sob controle tanta gente violentada em seus direitos mais básicos. São vários e complexos os instrumentos que anestesiam também todos aqueles que, apesar de não sofrerem diretamente os efeitos da miséria, são levados a observá-la como distante espetáculo de piedade ou de horror. Dentre os instrumentos que geram essa submissão ou esse anestesiamento, entendemos que os grandes meios de comunicação possuem papel cada vez mais central, transformando a desumanidade em algo tolerável e, até mesmo, vendável.

Transmitindo e notificando imagens distorcidas da realidade brasileira anestesiam seu público, domesticando-os a ponto de que aceitem a injustiça como justiça, e o egoísmo e individualismo como saída natural em meio à terrível competição pelo ganha pão. Somente os melhores sobem… os que não prestam recebem a fome, a pobreza e a prisão como punição. Campanhas diárias de contra-informação constroem um outro Brasil nas mentes e corações de milhões de brasileiros: um “Brazil” espetacular que deixa de existir assim que desligamos a TV ou fechamos o jornal. Mas é esse “Brazil” distante que forma a maneira como milhões de brasileiros enfrentam a sua dura realidade: com passividade, com alienação, com preconceito, com egoísmo, consumismo… (importante lembrar que o brasileiro passa em média 4 horas em frente de sua TV todo dia).

Os meios de comunicação de massa mais do que um quarto poder estabelecido estão se tornando o principal instrumento de dominação ideológico (neste país ainda analfabeto) pois aliam o enorme alcance e poder de persuasão com o comércio altamente lucrativo. A comunicação no Brasil está longe de ser um espaço democrático. O país ainda não tem mecanismos claros que impeçam o monopólio desses meios e a concentração dos veículos nas mãos de um número muito pequeno de famílias. Atualmente, seis redes privadas nacionais de televisão aberta e seus 138 grupos regionais afiliados detêm a propriedade de 667 veículos de comunicação, entre emissoras de TV, rádios e jornais (dados do Epcom – Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunicação). O campo de influência dessas 6 redes privadas se capilariza abrangendo mais de 90% das emissoras nacionais (que funcionam com o apoio de verbas públicas!). O processo de concessões de rádio e TV também não conta com regras democráticas e mais 10% dos deputados federais possuem rádios ou TVs, o que é proibido pela nossa Constituição.

Infelizmente a luta pela democratização dos meios de comunicação está ainda embrionária. A maioria dos movimentos e organizações sociais que lutam para transformar a realidade brasileira infelizmente ainda compreendem mal a relevância, nos dias de hoje, do fenômeno da comunicação de massas e o papel que instrumentos alternativos de comunicação, que campanhas populares e amplos processos de formação podem desempenhar junto a população. Quando lançam mão desses instrumentos acabam, por falta de formação mais aprofundada na área, repetindo os mesmos mecanismos da comunicação antidialógica praticada pelos grandes meios de comunicação ou agindo com ingenuidade diante do poder de ação dos grandes meios difusores. Dessa maneira, um dos objetivos primordiais dos movimentos e organizações, que é o processo de conscientização, torna-se precário ou é facilmente desmobilizado pelas técnicas e mecanismos de persuasão do marketing.

A comunicação/educação populares estão também vinculados com a própria estrutura organizativa dos movimentos. Os processos comunicativos, que envolvem tanto a circulação das informações como formação, isto é, a capacidade de compreender/desvendar as informações circulantes, estão intimamente relacionados a construção da democracia e a autonomia dentro das organizações e movimentos sociais. É a qualidade desses processos comunicativos (informativos e formativos) que podem garantir uma correta observação e análise da realidade a partir da qual serão traçadas estratégias de ação e de diálogo com os diversos grupos sociais almejados. São os mecanismos adequados de comunicação e educação que garantem que o diálogo realmente se estabeleça internamente entre a direção e sua base ou entre setores de uma mesma organização e, externamente, entre movimento e população, entre intelectuais e classe trabalhadora.

Acreditamos na centralidade da comunicação e da educação popular tanto para a construção de estruturas organizativas democráticas como para a construção de um diálogo que realmente se efetive entre os movimentos e a classe trabalhadora. Acreditamos que há um grande abismo teórico e prático nessas áreas e acreditamos que com a Camará Comunicação e Educação Popular poderemos contribuir para a democratização radical da sociedade brasileira, trabalhando junto às organizações e movimentos sociais.

*Poema brasileiro (Ferreira Gullar)

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