O Processo de Consciência

por Jefferson Vasques

O processo de consciência é um dos temas mais polêmicos e pantanosos dentro da esquerda. Toda uma linhagem de neo-marxistas (como os da Escola de Frankfurt) se enveredaram por essa temática buscando, em alguma medida, se contrarpor a uma leitura postivista de marx. Muitos, nesse intuito, acabaram por romper definitivamente com as elaborações de Marx ora negando a possibilidade de uma consciência de classe, ora decretando o fim da centralidade do trabalho na formação da consciência coletiva. Felizmente, ainda resiste uma certa produção intelectual que, sem se deixar enfeitiçar pelo canto da sereia pós-moderna, critica o marxismo vulgar e positivista. Mauro Iasi é um desses intelectuais orgânicos que, no intuito de estudar o processo de consciência, retoma o pensamento de Marx e a radicalidade de seu método dialético. O texto que se segue é uma redução drástica (e um tanto inexata) das complexas idéias desenvolvidas por Mauro em seus estudos. Esperamos, com isso, estimular a retomada da reflexão e do debate sobre o processo de consciência.

“Penso, logo existo” ou “Existo, logo penso”?

Imagine um professor universitário. Renomado. Especialista em Marx. Quando está na sala de aula, fala com paixão da luta e da revolução. Certo dia, e esse dia sempre chega, o professor é cobrado a se movimentar em defesa de sua categoria. Ele, de início, desconversa, tenta arranjar um compromisso de última hora e, por fim, argumenta que sua contribuição para a luta se dá mesmo na sala de aula.

Imagine, agora, um trabalhador de chão de fábrica. Desconhecido. Especialista em torno. Age com convicção acompanhando cada movimentação da classe sempre que ela se põe em movimento. É capaz de por em risco seu salário, que sustenta esposa e 3 filhos, em nome da luta coletiva. É analfabeto.

Quando se fala em formação de consciência, a maioria dos militantes de esquerda logo imagina árduas horas de estudo dos clássicos da literatura revolucionária, debates acalorados, cursos e palestras. A conscientização, em geral, é relacionada com um processo “consciente-racional” de absorção de informações. Seguindo essa lógica, se um militante adquire conhecimento revolucionário (aceitou marx) sua consciência se tornaria, doravante, revolucionária (está salvo!). Como explicar, a partir dessa concepção, as ações dos personagens do exemplo inicial? O que determina, em última instância, a consciência de alguém e, conseqüentemente, sua ação? Aquilo que ele sabe intelectualmente ou aquilo que vivencia?

A formação da consciência enquanto indivíduo – o mundo é.

Mauro Iasi é educador popular e estuda há mais de 20 anos o processo de consciência, mesclando a análise de trajetórias de militantes e reflexões originais sobre os pensamentos de Marx, Lukács, Gramsci, Freud, Sartre. Mauro, em seus estudos, nos mostra que a ideologia (entendida, neste texto, como um conjunto de idéias que dão coerência a certos fenômenos) não é o elemento determinante na formação da consciência (apesar de cumprir importante papel na produção do senso comum). A consciência seria constituída pela interiorização do conjunto das relações vividas pelo indivíduo. Em outras palavras, o que você faz e como faz o constitue. Invertendo o famoso ditado, diríamos que os meios justificam seus fins, isto é, o processo e suas mediações determinam o que se obtém ao final do processo. Simplificando grosseiramente diriamos que a ideologia seria um telhado que se encaixa numa estrutura que vai sendo levantada desde o nascimento. Essas estrutura é formada pelo conjunto de padrões e valores absorvidos ao longo das relações vivenciadas. Portanto, eu poderia – como no exemplo inicial – ter uma pessoa (no exemplo, o professor) com um telhado de idéias revolucionárias mal encaixadas numa estrutura conservadora. A pressão do mundo real (necessidade de fazer greve por exemplo) trouxe a tona esse desencaixe colocando o professor em uma situação contraditória. Caso se colocasse em movimento junto com a greve essa sua estrutura conservadora poderia começar a ser transformada…

Mauro foca seus estudos na família, o primeiro espaço de contato de um novo ser com as relações burguesas. É no seio da família burguesa que a ordem se produz subjetivamente, onde se cria o “indivíduo”, essa consciência atomizada, falsamente “independente” e alienada. As restrições sociais (histórica e socialmente construídas), mediatizadas pelos pais, através de um jogo de opressão e chantagem emocional, são internalizadas pela criança como valores, normas e padrões de conduta, como nos explica Iasi: “A cada passo, o novo ser vai criando a base sobre a qual estrutura seu psiquismo e sua personalidade, ao mesmo tempo em que se amolda à sociedade da qual está interiorizando as relações e formando, a partir delas, a consciência de si e do mundo.” Só posteriormente, a ideologia burguesa – melhor articuladas na escola e pelos meios de comunicação – se assentará sobre esse conjunto profundo de relações alienadas formando o senso comum.

Formação da consciência coletiva – o mundo não é, está sendo!

Mas se a consciência, aprisionada a esse invólucro individual, é formada tão cedo e se instala em padrões profundos (a partir das relações familiares) e, se sabemos que o simples convencimento – depósito de informações revolucionárias na cabeça do militante – não joga papel decisivo na formação da consciência, então, como podemos explicar que – em meio à ordem capitalista – se formem revolucionários?

Mauro nos ajuda. A consciência se manifesta em movimento, é contínuo processo. Assim o é porque reflete as relações objetivas no mundo, que se transformam continuamente (por mais que a classe dominante queira nos fazer crer que o mundo é o mesmo desde que surgiu e que a história não existe mais). Quando as relações vividas contrariam a ideologia que explica essas relações, surge, então, uma contradição na consciência do indivíduo.

Surge a possibilidade de uma crise ideológica e de consciência.

A consciência só se coloca em movimento mediante uma contradição. Uma contradição, como a impossibilidade de viver com o salário que se recebe (portanto quebrando a idéia de que “trabalhando se consegue”), pode se manifestar na consciência e na ação do trabalhador como rebeldia, se vivenciada individualmente. Com a rebeldia se inicia uma contestação difusa, uma vontade de se buscar uma nova forma de se relacionar com a situação – que agora é experimentada como contradição. Esse novo padrão de relação buscado, esses novos valores e padrões de ação só podem ser vivenciados num grupo de novo tipo, que fuja à ordem estabelecida. Caso o trabalhador veja sua rebeldia espelhada em outros, que vivem a mesma contradição, pode ter início um movimento de luta conjunta para sua superação.

O conjunto das práticas desse grupo, das relações coletivas que se estabelecem contra a ordem que gerou essa contradição, abre a possibilidade para a formação de uma nova consciência. Portanto, assim como através das relações familiares a ordem burguesa foi reproduzida na subjetividade dos indivíduos também ocorre que através de novas relações contra essa mesma ordem (grupo reivindicatório) essa primeira forma de consciência – alienada – pode ser vivenciada como contraditória e, portanto, superada, ocorrendo um salto de qualidade de consciência. O indivíduo readquire a possibilidade de se ver e agir enquanto ser social. Em grupo, o potencial transformador do ser é readquirido: o mundo não mais é, está sendo.

Formação da consciência revolucionária – o mundo será outro!

A consciência reivindicatória – classe em si – já se percebe enquanto elemento antagônico ao capital. Superou uma importante contradição, mas ainda não a central. A consciência revolucionária somente se forjará caso o grupo viva uma contradição geral que ponha em risco a continuidade da vida, ou seja, a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e os meios de produção, entre capital e trabalho. A consciência reivindicatória precisa realizar uma segunda negação, negando a si mesma enquanto classe, e assim, assumindo a luta de toda a humanidade por sua emancipação contra o capital. Para isso, é preciso destruir o antigo mundo ao mesmo tempo em que se ergue o novo, forjando uma nova consciência e um novo homem.

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