A Receita da Mediocridade

Notícia Já. Nas bancas e nas ruas, o mais novo jornal da RAC (Rede Anhanguera de Comunicação) – lançado no mês de abril – segue à risca a receita da indústria cultural: produção de informação-mercadoria com fins lucrativos, entretenimento das massas com notícias que reforçam os padrões estabelecidos e mais um instrumento de fortalecimento da ordem vigente. Vendido a módicos R$0,50, o jornal tipo tablóide está saindo como água majoritariamente para quem não pode pagar mais por outro impresso: as classes populares de Campinas e 12 cidades da região.

Os ingredientes são facilmente detectados nas capas deste produto jornalístico, cujas manchetes representam a síntese do que é noticiado no tablóide: mulheres jovens, bonitas e famosas, resultados futebolísticos e violência. O tempero fica por conta de matérias que abordam fatos curiosos do cotidiano, como a do casal que transou no estacionamento de um shopping center, pauta que só faz estimular o voyeurismo contemporâneo a la “Big Brother”. Em tons sensacionalistas, os títulos apelativos se apropriam de jargões populares e o conteúdo das matérias sem relevância social só fazem reger um espetáculo de textos do senso comum.

O jornal surge como mais um meio de difusão dos valores machistas, individualistas e consumistas que permeiam nossa sociedade. Só para exemplificar, ao longo do tablóide existem três seções dedicadas à imagem do tipo ideal feminino: logo na segunda página, a previsão do tempo é ilustrada por uma modelo que se veste de acordo com a temperatura – dias quentes de biquíni e frios agasalhados -; no miolo do jornal, a seção “a fanática” é dedicada a mulheres “comuns” presenteadas com a publicação de sua foto – sempre em poucas roupas – e a declaração de seu fanatismo; e a contracapa exibe a foto de uma mulher famosa acompanhada das “indispensáveis” fofocas. Os valores individualistas são reforçados em matérias que enfocam a ascensão social por esforço próprio, o homem que subiu na vida pelo próprio esforço, este que é bem sucedido porque fez por onde, como se não existissem fatores históricos, políticos e econômicos que determinam nossa condição social. E como todo jornal-produto, este não se faz só de venda, mas essencialmente de publicidade, o que justifica o baixo preço do tablóide. Ao longo do jornal, propaganda para dar e vender. O potencial consumidor? Os leitores que são comprados pelos anunciantes: quanto mais leitor, mais anúncio vendido.

E que tipo de ideologia compram os leitores? Idéias que não buscam a transformação, mas justamente a conformidade com a realidade, aparentemente imutável. As pautas que abordam política se resumem a entrevistas com representantes do terceiro setor e notícias sobre os direitos do consumidor. Políticas governamentais não são noticiadas, muito menos matérias sobre movimentos sociais e populares. Assim, o leitor-consumidor vai dando significado para seu lugar no mundo: alguém que não acredita em políticos, que pode ajudar o próximo dentro dos limites assistencialistas e lutar unicamente pelos seus direitos de consumidor no Procon. E para que tragédia e farsa andem de mãos dadas, o espetáculo é complementado por matérias sobre violência, seqüestros e fugas de presídios sem nenhuma contextualização sobre as causas da criminalidade e, como anestesia, notícias sobre futebol, com destaque para os campeonatos regionais, os quais proporcionam identificação com o leitor local.

Com tiragem de 40 mil exemplares e distribuição diária de segunda a sexta e um exemplar único mais recheado para o final de semana, Notícia Já surge para aumentar ainda mais a lista dos produtos da RAC, conglomerado que monopoliza a produção dos meios impressos de comunicação na cidade de Campinas e região. São seis jornais impressos (Correio Popular, Diário do Povo, Notícia Já, Gazeta do Cambuí, Gazeta de Piracicaba, Gazeta de Ribeirão), uma revista (Metrópole), um portal de informações na Internet (Cosmo On Line) e uma Agência de Notícias, a Agência Anhanguera de Notícias (AAN), que produz e vende notícias para todo o interior do estado de São Paulo. O resultado desta concentração e da falta de empresas de comunicação concorrentes da RAC é a produção e transmissão de informações regidas por uma única linha editorial-ideológica. E como se já não bastasse, desde o mês de agosto, o Notícia Já passou a ser vendido nos próprios ônibus de Campinas, por meio dos cobradores que não recebem nem um tostão a mais por isso. Uma parceria com a Transurc (Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Campinas) que transforma o transporte público em espaço de venda dos modos de pensar e viver difundidos pela RAC.

Notícia Já: matérias curtas e mensagens rápidas, uma mistura de conteúdo jornalístico e publicidade que chega a confundir o leitor. No final das contas, tudo está à venda: dos produtos à ideologia. Consolidado no mercado com divulgação massiva e presente nas mãos de vendedores jovens em pontos centrais da cidade, a receita copiada dos tablóides ingleses que seguem a mesma lógica parece ser lucrativa. Com preço baixo e sustentado pela publicidade, oferece ao público consumidor-leitor as mercadorias-informações que surgem como um complemento ao transmitido pela televisão: entretenimento imbecilizador, conteúdo superficial e informações que reforçam os hábitos e padrões hegemônicos. Mais um projeto para a manutenção da ideologia do statu quo. E o mais importante: isso vende.

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