O cartaz em cartaz

Eu havia pensado num jeito mais teórico pra começar esse texto, mas a internet me chamou na outra janela e me deu um toque: comece pela prática. Estava agora olhando o blog da ocupação da reitoria da USP e alguns comentários lá postados. Um reclama do português “errado”, outro, se intitulando Hugo Chavez manda um “arriba companheiros!”. Com desafetos e apoiadores se manifestando, a ocupação continua (e nossa camará Cristina esteve lá acompanhando desde o início). Assim como foi na Unicamp, a luta dos estudantes tem avançado, gerando discussão, polêmica, pressão e vitórias. Mas, e os cartazes do título, o que têm a ver com isso?

Bem, o que me fez citar aqui a ocupação foi um dos comentários que pedia para trocar a imagem que aparece no blog (intitulado “um blog de luta”) mostrando vultos de ninjas em posição de luta e que “não tem nada a ver com estudantes ocupando a reitoria”. E isso é a essência do cartaz: a relação entre discurso/atitude e imagem. É verdade, existem diversos tipos de cartazes, muitos sem figuras propriamente ditas, em que o texto (ou a tipografia, sendo mais exato) passa a funcionar como imagem , mas essas soluções não deixam de ser soluções que propõem uma relação entre imagem e texto. Podemos dizer que todo cartaz faz apelo às imagens, mesmo que seja porque simplesmente muda o tamanho da letra usada.

Estou aqui falando dos cartazes, mas talvez você esteja aí se perguntando: qualé? Que tem demais os cartazes? Qual é a importância deles? Ora, sempre que se faz esse tipo de pergunta precisamos recorrer à história, porque o futuro ainda não chegou e o presente já era… então, vejamos: os cartazes só foram possíveis a partir da litografia, técnica de impressão inventada por Aloys Senefelder (1771 – 1834), mas quem criou de fato cartazes que reúnem imagem e texto foi o pintor francês Jules Chéret, em 1860 . Foi ele quem aperfeiçoou a técnica e tornou possível grandes tiragens, de cartazes cada vez maiores, que são os precursores do que conhecemos hoje por outdoor.

Mas o cartaz resiste bravamente, apesar dos já citados outdoors e daqueles telões gigantes a lá Blade Runner, que hoje vemos poluindo a paisagem urbana. E não só resiste, como ajuda a resistir, a lutar e a avançar. Na revolução russa, por exemplo, eles foram amplamente utilizados, mesclando poesia e (pela primeira vez) montagens fotográficas, contribuindo para construção de uma nova forma de produção e propaganda ideológica, que agora seriam verdadeiramente do proletariado. Essa experiência infelizmente degringolou-se no realismo soviético, que acabou prevalecendo na era stalinista da URSS.

Mas outras experiências, a exemplo da revolução cubana, também tiveram a gráfica ao seu lado. Dos que comemoravam os aniversários da revolução aos da escola cubana de cinema — que é referência mundial —, os cartazes cubanos fazem história. O difícil acesso a técnicas como o offset levou os cartazistas cubanos a desenvolverem como ninguém a serigrafia. E há cartazes realmente impressionantes, considerando (ou não) a técnica utilizada. Não só de bons exemplos, porém, é feita a história dos cartazes. Quem não se lembra da imagem do militar americano apontando o dedo para sua juventude e dizendo que precisa dela para defender os interesses de um império cada vez mais destruidor? Aliás, o design (o “styling”) americano é, aliás, o que de mais intelectualmente bossal pode-se encontrar na história da gráfica. Mas o exemplo mais devastador de relacionamento entre a arte (lembremos que o cartaz está intimamente ligado a ela) e a política foi o nazismo. A suástica invertida foi marca onipresente na grande máquina de propaganda e morte, em que o os cartazes mostravam o Fürer como um grande líder a ser seguido.

Estes não foram, porém, momentos pontuais em que política e cartaz estiveram juntos. Eles estão, na verdade, intimamente ligados. Em todo movimento social importante, a produção imagética aparecerá de alguma forma. A produção e reprodução de signos, sejam eles verbais ou visuais, tem necessariamente uma carga ideológica e, portanto, material. Não existem idéias que movimentem a sociedade sem suporte material para que elas sejam compartilhadas…. e se grandes setores da população mundial não têm outdoors ou outras bugigangas para se manifestar, continuamos, nem que seja com dois A4s colados, inventando e reinventando nossos bons e velhos cartazes.

1- Devo citar aqui uma camiseta muito interessante em que ilegivelmente se apresenta por completo o manifesto comunista, de Marx e Engels.

2- Informações retiradas de http://www.artmuseum.gov.mo/showcontent.asp?item_id=20050430020100&lc=2 lá tem um panorama da relação do cartaz com a arte e com alguns pintores.

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