Qual o papel da comunicação popular em uma cooperativa? Como ela pode contribuir para a organização dos trabalhadores e trabalhadoras? Quais são os instrumentos que temos em mãos para fazer contra-informação em relação aos grandes meios comerciais de informação? Estas e outras questões foram abordadas na oficina “Comunicação Popular”, oferecida no curso de extensão de formação de monitores da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Unicamp, no dia 24 de outubro.
No início da oficina foram apresentados alguns dados que ilustram a situação dos meios de comunicação no Brasil, uma realidade marcada pelos monopólios e oligopólios, além de uma audiência massiva centrada na televisão. Apenas para retratar um pouco: 81% da população brasileira assistem à televisão todos os dias, com uma média diária de 3,5 horas; a televisão é o veículo de comunicação de maior alcance no país e o meio de informação e entretenimento mais utilizado pelos brasileiros; a TV e o rádio são as maiores e únicas fontes de informação para a maioria dos brasileiros, sendo que a TV está presente em 90% dos domicílios; o número de domicílios que possuem televisão (90,0%) é maior que o de domicílios que possuem geladeira (87,3%); seis redes privadas nacionais são retransmitidas na rede aberta de televisão. Esses canais comerciais regem sua programação de acordo com os índices de audiência. As seis redes privadas nacionais são: Globo, SBT, Record, Band, Rede TV! e CNT. Além destes, foram apresentados os “donos” das empresas de comunicação, representados por 13 famílias brasileiras, além das igrejas evangélicas.
Na segunda parte da oficina, foi feita uma diferenciação entre o meio de comunicação comercial e o popular, a partir dos conceitos de Mario Kaplun, comunicador popular argentino que dedicou parte de sua vida à construção de instrumentos de comunicação em comunidades de periferia da América Latina. Para ele, a comunicação se divide em dominadora, esta que é monológica, vertical, unidirecional, monopolizada e a serviço de um grupo restrito de pessoas (a burguesia), e democrática, esta que é dialógica, horizontal, bidirecional, participativa e a serviço das maiorias (a classe trabalhadora). A partir desta definição, foram mostrados exemplos que esclarecem a posição política de certos meios de comunicação e a opção por abordar determinados fatos de acordo com sua linha editorial/ideológica. Por exemplo: os grandes meios de comunicação comerciais sempre dirão “MST invade fazenda” ao invés de “MST ocupa fazenda”, porque não consideram legítima a ocupação de latifúndios. Quais são os interesses econômicos e políticos destes empresários da comunicação? O debate foi se desenrolando a partir de ilustrações, exposição de casos e, então, foram apresentadas algumas experiências de comunicação popular: as rádios e TVs livres e comunitárias, os zines, os jornais, boletins, os vídeos, fotografias, Internet e as artes em geral como meio de comunicação: teatro, dança e música. A comunicação popular foi apresentada, então, como um instrumento da educação e organização popular: o processo de produção de um meio é tão ou mais importante que seu produto final. Neste processo de elaboração, se reflete sobre a realidade e sobre as condições objetivas e subjetivas para transformá-la. Para Mario Kaplun, a comunicação popular:
Ha de estar al servicio de um proceso educativo liberador y transformador. La comunidad ha de ir formándose com ella, comprendiendo críticamente su realidad y adquiriendo instrumentos para transformala;Ha de estar estrechamente vinculada a la organización popular; Y ha de ser una auténtica comunicación; es decir, tener como metas el diálogo y la participación (KAPLUN, El comunicador popular, p. 85).
No final, foi feito um debate sobre a construção destes instrumentos nas cooperativas populares, seus limites e possibilidades, e a importância de pautar a comunicação nestes empreendimentos. Se comunicar não só para divulgar o trabalho dos cooperados e cooperadas, mas enxergar a produção de meios de comunicação como propiciadora de reflexões sobre a realidade e impulsionadora de lutas por transformação.






